SOCIEDADE DESCENTRALIZADA – PARTE I

SOCIEDADE DESCENTRALIZADA – PARTE I: web3

WEB3

Se você não acredita ou não entende, eu não tenho tempo para tentar te convencer, desculpe.” – Satoshi Nakamoto

É uma fraude” e “pior que os bulbos de tulipa” – Jamie Dimon, CEO do JP Morgan

Fique longe disso. É uma miragem, basicamente. Em termos de criptomoedas, geralmente, posso dizer quase com certeza que eles chegarão a um final ruim.” – Warren Buffett

“A Web 3 é uma Internet de propriedade dos usuários e construtores orquestrada com tokens”. – Chris Dixon

“Algumas recomendações: Primeiro, vá ler Snow Crash e aprecie o quão presciente esse livro foi. E depois, assista ao Ready Player One. Há aspectos que eu não acho que estejam logo ali, mas acho que muita coisa está chegando mais cedo do que as pessoas esperam.” – Timothy Ferriss

Don`t believe the hype”! – Public Enemy

A WEB3 é um sistema operacional socioeconômico” – Shermin Voshmgir


WEB3

Alguém viu a web3? Não consigo encontrá-la“. Com essa pergunta no Twitter Elon Musk questiona aquilo que para ele “parece ser mais marketing buzzword do que realidade neste momento”. Jack Dorsey, ex-CEO da plataforma o respondeu: “está em algum lugar entre o A e o Z”.

Web 1.0, Web 2.0 e, agora, Web3… Esses termos são motivos de muita confusão e discussões e no fim acaba sendo difícil entender o que realmente é um ou outro.

Assim, não resta dúvida de que marcos temporais são pedagógicos e estes estão diretamente relacionados a forma que utilizamos a internet. A análise da evolução humana associada ao uso da tecnologia nos mostra estratégias de marketing que criam mercados e expectativas para o nosso futuro.

A Web 1.0 é a internet como ela surgiu. Fazíamos uso de celulares analógicos (os dumbphones, chamados carinhosamente de tijolões), a mobilidade era praticamente inexistente e a publicidade na web mais parecia os classificados dos jornais. Os sites “em construção” ou de conteúdo estático com pouca interatividade recheavam a primeira versão da internet. Os banners eram a busca pelo espaço.

A euforia do começo da internet comercial nos anos 90 se deparou com o estouro da bolha das pontocom, quando diversas empresas que prestavam serviços na recém-popularizada internet quebraram.

O período (1995-2000) marcou os últimos passos da Web 1.0. Não era para menos: a novidade da internet + a abundância de dinheiro “barato” para financiamento + a super confiança do mercado + o investing fad + a especulação de sempre. Muitos dos principais serviços dessa época não sobreviveram, outros ficaram de pé como a Amazon e o Ebay.

A Web 2.0 ficou marcada pela chegada das redes sociais e pelo volume de conteúdos criados pelos próprios usuários. Grandes empresas se consolidaram e a mobilidade, a geolocalização e o Big Data revolucionaram a propaganda na internet, ou midia programática.

Aquele modelo de espaço rapidamente evoluiu para espaço-tempo e, finalmente, audiência. Pude explorar mais essa evolução em Buracos Negros Digitais – obra de 2020 onde abordo a regulação da internet no Brasil, mídia programática, desinformação e poder de mercado.

Há quem acredite que um novo crash ocorrerá como no passado e, pelos mesmos motivos. O investidor Charlie Munger da Berkshire Hathaway, um dos pais do Value Investing e braço direito de Warren Buffett, considera esta era ainda mais louca do que a era do pontocom.

Seria esse o marco trágico para o fim da Web 2.0 e o começo da versão 3? O crash de fato poderia se justificar diante da irracionalidade da indústria de NFTs onde milhões são pagos por ativos (mesmo com autenticidade), os milhares de ICOs ou IDOs de projetos que não deslancharam ou o crescimento de golpes em meio à nova onda. Será que estamos diante de potenciais tulipas, como ocorreu na Holanda, e avestruzes aqui no país?

Mas, crise é guerra e, claro, oportunidade.

Em 2008 foi a crise econômica da bolha imobiliária americana que catapultou a economia compartilhada e o lançamento do Bitcoin – em que pese uma série de moedas digitais tenham sido tentadas anteriormente. Facebook não foi a primeira rede social, mas foi a que mais vingou até então. Mesmo que inovações antecedam crises, muitas vezes ali se destacam. Foi assim com o Bitcoin e, naturalmente, com o blockchain.

Pude explorar isso em meu artigo Adpate-se, de 2018: “Após todas as crises do capitalismo, a inovação tecnológica surge para superar o esgotamento dos meios de produção do modelo anterior. A Economia Compartilhada e o blockchain são consequências da crise de 2008 e partes indissociáveis da 4ª Revolução Industrial. Durante a última grande crise, desempregados viraram motoristas de aplicativos. Para não perder suas casas, pessoas comuns passaram a hospedar terceiros “alugando” parte ou todo de suas casas. Nasciam Uber a Airbnb. Já o blockchain foi criado por um pequeno grupo de cyber-ativistas em reação ao Federal Reserve. Enquanto pessoas perdiam suas casas e empregos, o mercado financeiro, causador do crack, distribuía bônus aos executivos. A Bitcoin surge como uma resposta e porta de saída do modelo centralizado. Baseado o protocolo em distribuição e mineração de moeda digital escassa como o ouro a fim de evitar sua desvalorização e a inflação, o ativo digital ainda é fonte de polêmica e desconfiança. Mas o Bitcoin não é a inovação pós-crise. É o blockchain.”

Sobre a base da web descentralizada está o blockchain. Gosto muito da visão do ciberativista e amigo Pablo Lobo da Sthorm: “blockchain é um processo tecnológico que permite muita gente jogar sem ninguém roubar na mesa”.

Em 2013 não houve exatamente uma bolha, mas as revelações de Snowden floparam a confiança depositada nas redes sociais, consideradas até então como a meca da democracia, pluralidade de ideias e da liberdade de expressão. Vale dizer que esses espaços digitais nunca mais foram os mesmos, pois ainda sofrem com a desinformação e interferências em processos democráticos, além dos reiterados questionamentos de abuso de poder econômico e da privacidade de seus usuários.

Sejamos claros! A web3 é um conceito, não uma realidade. O que se apresenta como metaverso, por exemplo, ainda é distante do que se espera e, por isso, sofre críticas de especialistas aversos ao modismo. O metaverso hoje se apresenta para mim mais como um Second Life ou FarmVille. Isso sem falar em crescentes scams, ataques que roubam milhões em criptos, NFTs caríssimos de coisas bizarras e esquemas Ponzi aos montes como caso nacional do Rei do Bitcoin.

O processo de descentralização de fato ainda está sendo desenhado, inclusive filosoficamente. O simples fato das maiores negociações de criptoativos ainda serem feitas em CEX – Centralized Exchanges é um indicativo de que há muito por percorrer.

Lado outro, a web3 é uma realidade do ponto de vista de debates e até tendência de mercado. Para além da tardia popularização das criptomoedas junto a investidores e instituição financeiras tradicionais, a onda dos ICOs e STOs entre 2016 e 2018 e a moda NFT a partir de 2020, o estratégico posicionamento do Facebook sob a marca Meta em 2021 catapultou o debate e vivemos em meio a um hype.

Mais uma vez opiniões emocionadas divergem entre entusiastas, especialistas, oportunistas, curiosos, palpiteiros, cautelosos e estudiosos. Soma-se a isso um ambiente que mistura vaidades de acadêmicos, bilionários da internet e mercado financeiro mais ativismos e gente cheia de razão.

O hype muitas vezes é a ponte necessária entre o underground e o mainstream. Já vimos isso antes. Lembro há exatos 20 anos das aulas com os professores Lawrence Lessig e Yochai Benkler do Berkman Center for Internet & Society da Harvard Law School, hoje The Berkman Klein Center, em que muitos dos conceitos como peer production, descentralização e a codificação como modelo de governança ressurgem repaginados.

Outrossim, mesmo não sendo uma realidade o debate sobre o que seria a web3 coloca no centro o que para mim é a principal questão: descentralização, neocentralização ou re-centralização?

Jack Dorsey que é um entusiasta das criptos, mas crítico da versão 3 tuitou algo sobre como os venture capitalists e seus parceiros dominarão a web3. “É, em última instância, uma entidade centralizada com um rótulo diferente” disse, causando a ira dos fãs do conceito, chegando a apontar o dedo para a Andreessen Horowitz (a16z), um venture capital. Marc Andreessen bloqueou Dorsey que logo tuitou “banido da Web3“.

No texto “Why Web3 Matters”, Chris Dixon, sócio da a16z, advoga que os tokens alinham os participantes da rede para trabalharem juntos para um objetivo comum – o crescimento da rede e a valorização do token. “Isto resolve o problema central das redes centralizadas, onde o valor é acumulado por uma empresa, e a empresa acaba lutando contra seus próprios usuários e parceiros.Antes da web3, os usuários e construtores tinham que escolher entre a funcionalidade limitada da web 1.0 ou o modelo corporativo, centralizado da web 2.0.A web3 oferece uma nova forma que combina os melhores aspectos das épocas anteriores. É muito cedo neste movimento e um ótimo momento para se envolver.”

O polêmico Scott Galloway, por sua vez, afirma em seu artigo que a anunciada descentralização do poder tem sido, de fato, uma re-centralização do poder nas mãos de poucos. Ele afirma que 0,1% dos mineradores de Bitcoin são responsáveis pela metade de toda a produção da mineração. “Se fosse um país, o Bitcoin teria a maior desigualdade do mundo”, atira Galloway. Conclui que a web3 tem cabelos de cores diferentes, mas o mesmo DNA dos paradigmas anteriores da web, que descentralizaram os serviços em uma escala sem precedentes para centralizar a riqueza e a influência em uma escala sem precedentes. Para ele “Até agora, web3 é web2.01.”

O consultor de tecnologia Adrian Book em seu artigo “Dear Crypto, NFTs, DAOs & Web3 fans: I have some questions. How are you guys doing? No, really” faz algumas perguntas provocativas sobre a web3: “O que há de errado com a centralização?”; “Quem quer construir e possuir uma plataforma?”; “A web3 está realmente descentralizada?”; “Será realmente os “primeiros dias”?”; “E os golpes, fraudes e roubos?”; “É inevitável ou você está trabalhando para outra pessoa para torná-la realidade?”; “Você acha que é a próxima grande coisa… ou você precisa que seja?”.

Ele conclui que: “Vivemos em plataformas que literalmente prosperam com raiva e descontentamento. (…) Estamos promovendo estrelas que na verdade são bilionários que vão para o espaço para se divertir. Rimos das vacas usando fones de ouvido VR, enquanto deixamos a Netflix passar automaticamente o próximo episódio. Não há nada a fazer, exceto jogar. A web3 oferece uma fuga. Uma comunidade em um mundo que está muito carente. Um lugar onde poderíamos construir um mundo melhor. Ou pelo menos apostar tudo, por que o que temos a perder de qualquer maneira? Sabe de uma coisa? Eu não quero uma resposta a esta pergunta. Boa sorte lá fora.”

O criador do Signal, Matthew Rosenfeld, mais conhecido como Moxie Marlinspike, diz em um ensaio sobre as suas primeiras impressões sobre a web3 que soa estranho que nesse versão as tecnologias como o ETH foram construídas com muitos dos mesmos traços implícitos da web 1.0. E que para torná-las utilizáveis, estão se consolidando em torno de plataformas.

Um dos inventores do Ethereum, Vitalik Buterin, respondeu à Marlinspike no Reddit, concordando em parte. “As críticas de Moxie na segunda metade do post me parecem ter uma crítica correta ao estado atual do ecossistema… mas elas deixam a desejar sobre para onde o ecossistema de blockchain está caminhando“, escreveu ele. Vitalik é um dos que de fato acredita em grandes transformações.

Para ele “Enquanto a maioria das tecnologias tende a automatizar os trabalhadores na periferia fazendo tarefas domésticas, os blockchains automatizam o centro. Em vez de deixar o taxista desempregado, o blockchain coloca a Uber fora do trabalho e permite que os taxistas trabalhem diretamente com o cliente”, afirmou o co-fundador da Ethereum.

Interessante notar que os entusiastas e mesmo os mais ácidos dos críticos concordam em regra sobre o momento da web3, não condenando necessariamente o seu futuro.

A analista Eshita Nandini, aficionada do tema, apresenta uma análise simples, porém muito interessante sobre as versões da internet. A estrutura básica apresentada no texto “Web3 in a nutshell” é a seguinte:

Web1: Read-Only

Web2:  Read-Write

Web3: Read-Write-Own

Ao lê-la, logo me veio em mente essa imagem:

O desenvolvedor e engenheiro italiano Fabio Manganiello, em “Web 3.0 and the undeliverable promise of decentralization” sentencia que “A definição de “Web 3.0” assumiu diferentes encarnações nos últimos anos, dependendo de quem você perguntou e quando. Inicialmente pensamos que teria sido algum tipo de web semântica, com ontologias e taxonomias compartilhadas que descreviam todos os domínios relevantes para o conteúdo publicado. (…) Olhando as coisas em 2022, podemos argumentar que esta visão (ainda?) não foi realizada. (…)Há uma razão simples pela qual a tecnologia se move inercialmente em direção à centralização, a menos que uma força externa suficiente seja aplicada, e eu acho que esta razão é frequentemente subestimada: A maioria das pessoas não quer rodar e manter seus próprios servidores. (…) Os protocolos descentralizados se movem muito mais lentamente do que as plataformas centralizadas. A descentralização envolve a elaboração de protocolos compartilhados que todos concordam. Este é um processo lento que normalmente requer a obtenção de consenso entre empresas concorrentes, academia, organizações de normalização, especialistas em domínio e outras partes interessadas relevantes.”

O professor de direito e tecnologia James Grimmelmann, é outro cético: “Web3 é vaporware”, um produto que é anunciado, jamais entregue.

Para o sempre lúcido Tim O`Reilly ao abordar o tema em “Why is it’s too early to get excited about Web3”, confessa que adora o idealismo da visão web3, mas já passamos por isso antes. “Durante minha carreira, passamos por vários ciclos de descentralização e recentralização. A computação descentralizada de computadores pessoais, fornecendo uma arquitetura de PC commodity que qualquer pessoa poderia construir e que ninguém controlava. Mas, a Microsoft descobriu como recentralizar a indústria em torno de um sistema operacional proprietário. O software de código aberto, a Internet e a World Wide Web quebraram o estrangulamento do software proprietário com software livre e protocolos abertos, mas em poucas décadas, Google, Amazon e outros construíram novos monopólios enormes fundados em grandes dados.”, escreve ele.

Ele vai além: “Gosto de lembrar às pessoas que escrevi “O que é web 2.0?” cinco anos após o estouro da bolha do pontocom com o objetivo explícito de explicar porque algumas empresas sobreviveram e outras não. Assim também, suspeito que só depois do próximo é que entenderemos realmente em que consiste a web3, se é que alguma coisa.”

Tendo a me alinhar com ele. Entre o A e Z, tudo ou nada, algo novo certamente surgirá e provocará alguma transformação. Que a utopia de uma rede descentralizada com empoderamento do usuário sobre seus bens e identidade seja a busca, mesmo sabendo que a realidade é pedagógica e as coisas não serão exatamente assim. Se parte do que se idealiza for possível será muito. Muita coisa surgirá, novas formas de poder se estabelecerão, governos atuarão e a regulação se apresentará. Tudo a seu tempo e modo. Quero me somar em parte aos que acreditam que teremos enormes beneficios como nas versões passadas e desafios a serem suplantados. Que possamos extrair o melhor e aprendermos com isso. Sem propósitos, sonhos e vontade de transformação disrupções e inovações não seriam possiveis. Basta olhar onde chegamos em tão pouco tempo da internet comercial de meados dos anos 90. Quanta comunicação, educação, inclusão! Sim, há muuuuiiittttooo por fazer, mas que o otimismo seja nosso norte.

Todo hype em torno do que seria essa nova versão certamente irá perdurar e provocar as mais delirantes e emocionadas reações. Sempre foi assim e sempre será. Faz parte da história do ser humano e, em algum momento, irá se chocar no muro da realidade. É uma necessária caminhada, uma construção que a despeito das vaidades deveria ser tratada com ao menos honestidade intelectual.

Ainda seremos bombardeados por abordagens sobre NFTs, DAOs, (para mim a sigla do ano!) Dapps, DeFis, identidade auto soberana, propriedade, tokenização e, claro, metaverso. Eu mesmo trarei opiniões e conceitos sobre cada um desses temas com a mais absoluta certeza de que vou errar.

Mas o que isso implicaria ou implicará não apenas do ponto de vista tecnológico, mas político e social, nas relações de poder, comportamentais e geopolíticas que poderão se desenvolver a partir dessa discussão, crash ou flopadas? Como códigos transformarão pessoas?

Tentaremos chegar lá, mas, para isso, é preciso avançar sobre algumas teorias. A primeira delas, minha próxima reflexão, será sobre a Big Bang Theory e a Expansão do Ciberespaço. Até lá!

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